A mineração exerce papel central na economia brasileira e, há décadas responsável por sustentar o superávit comercial nacional, hoje representa não apenas um setor econômico vital, mas também um eixo de poder geopolítico. No primeiro trimestre de 2025, o setor respondeu por 77% do saldo da balança comercial, reforçando sua centralidade para a estabilidade macroeconômica. Contudo, essa dependência expõe fragilidades estruturais: concentração em poucos produtos de baixo valor agregado, forte dependência da China como principal destino das exportações, enfrenta desafios crescentes relacionados à queda relativa de produção de minerais críticos fundamentais para tecnologias de baixo carbono e recorrentes crises socioambientais que corroem a credibilidade internacional do país.
Nesse cenário, a comparação evidencia que recursos minerais podem ser convertidos em instrumentos de diplomacia, sustentabilidade e hegemonia industrial. A análise insere a mineração brasileira no debate geopolítico contemporâneo ao confrontar sua trajetória com a de Austrália, Canadá e China — três países que, por caminhos distintos, transformaram abundância mineral em poder estratégico. A partir dessa perspectiva, emergem oportunidades para o Brasil reposicionar sua política mineral e redefinir seu papel na diplomacia econômica global, especialmente em um contexto marcado pela transição energética, pela disputa por minerais críticos e pela reconfiguração das cadeias produtivas.
Austrália, Canadá e China: uma leitura comparada
A comparação internacional evidencia que Austrália, Canadá e China, embora sigam trajetórias distintas, conseguiram transformar seus recursos minerais em instrumentos de poder geopolítico, articulando produção, política externa, inovação e governança para ampliar sua influência nas cadeias globais de valor. Esses países demonstram que a mineração pode ultrapassar sua dimensão econômica e assumir papel estratégico na diplomacia, na segurança energética e na competitividade industrial, oferecendo importantes referências para a análise da inserção brasileira no cenário internacional.
A Austrália consolidou-se como uma das maiores potências minerais do mundo, combinando abundância geológica com uma estratégia clara de inserção internacional. Exporta centenas de milhões de toneladas de minério de ferro anualmente e desempenha papel fundamental nas cadeias de suprimento asiáticas. Contudo, sua força não reside apenas nos volumes exportados, mas na capacidade de transformar recursos naturais em ativo geopolítico. Uma das iniciativas mais estratégicas foi a criação de uma reserva nacional de minerais críticos, de aproximadamente US$ 1,2 bilhão, destinada a apoiar cadeias de suprimento de países ocidentais, especialmente dos Estados Unidos, em resposta ao domínio chinês no refino. Além disso, a Austrália consolidou parcerias econômicas e diplomáticas com países da Ásia Pacífico, combinando segurança energética, cooperação tecnológica e acordos comerciais. O setor mineral australiano opera sob um regime regulatório robusto, com regras claras de licenciamento, fiscalização e responsabilidade socioambiental, o que fortalece a previsibilidade e a confiança internacional, atributos essenciais para atrair investimentos e firmar acordos de longo prazo. Apesar dessa força, o país enfrenta vulnerabilidades, pois depende significativamente da China como cliente e sofre com volatilidades de commodities como o lítio, que já ocasionaram suspensões de operações.
O Canadá apresenta uma estratégia altamente sofisticada de mineração, combinando produção diversificada, com mais de 60 minerais e metais, com um posicionamento internacional baseado em sustentabilidade, inovação e governança. O país lidera fóruns globais, como o PDAC (Prospectors & Developers Association of Canada), e conduz missões diplomáticas focadas na atração de investimentos e no compartilhamento de tecnologias para mineração de baixo impacto ambiental. Nesse contexto, o Canadá se posiciona como referência mundial em práticas ESG[1], adotando padrões rigorosos de consulta indígena, rastreabilidade e mitigação de impactos socioambientais, o que fortalece sua credibilidade e gera vantagens competitivas em mercados com exigências ambientais elevadas. Ainda assim, empresas canadenses enfrentam críticas por impactos socioambientais em projetos no exterior, sobretudo em países em desenvolvimento, e a relação com comunidades indígenas segue como tema sensível, exigindo constante aprimoramento regulatório.
A China ocupa posição singular na geopolítica mineral, sendo o maior consumidor mundial de minério de ferro, com importações projetadas em 1,27 bilhão de toneladas em 2025, e, simultaneamente, controlando entre 60% e 90% do midstream[2] de minerais críticos. Embora importe minério de ferro em grandes volumes, o país domina o refino de minerais essenciais para baterias, energias renováveis, tecnologia militar, ímãs permanentes e sistemas digitais, o que lhe confere poder considerável para moldar preços, estabelecer padrões e influenciar cadeias de valor em escala global. Sua demanda funciona, portanto, como instrumento de política externa e industrial. No entanto, essa concentração extrema também expõe a China a riscos, como demonstrado em episódios de retaliação envolvendo restrições de exportação de terras raras em resposta a tarifas dos Estados Unidos, evidenciando que sua posição dominante pode gerar tensões.
BRASIL: FORNECEDOR VULNERÁVEL OU ATOR ESTRATÉGICO?
Apesar de possuir reservas abundantes e liderança global em ferrosos, o Brasil mantém-se vulnerável do ponto de vista geopolítico. Em 2025, 67,5% das exportações brasileiras de minério de ferro tiveram como destino a China, confirmando uma dependência estrutural que expõe o país a riscos de volatilidade e mudanças na política industrial chinesa. Essa concentração é agravada por quedas recentes: entre janeiro e abril de 2025, as exportações de minério de ferro para a China caíram 29,4% em Minas Gerais e 21,8% no Brasil como um todo, acendendo alertas sobre a fragilidade da balança comercial.
Além disso, a produção brasileira de minerais críticos caiu de forma relativa desde 2017, deixando o país fora das cadeias globais mais dinâmicas da transição energética. Enquanto Austrália e Canadá desenvolvem cadeias de valor completas, o Brasil segue concentrado em commodities tradicionais, de baixo valor agregado. Essa concentração limita a capacidade de o país se inserir em mercados de alto valor e de participar das disputas estratégicas por minerais essenciais à economia de baixo carbono.
No campo dos minerais críticos, o Brasil detém 95% das reservas globais de nióbio e responde por cerca de 90% da produção mundial. Apesar dessa vantagem, o país ainda exporta majoritariamente ferro-nióbio sem avançar em cadeias de maior valor agregado, como superligas aeroespaciais ou aplicações em tecnologias quânticas. O mesmo ocorre com o lítio: embora o Brasil possua a quinta maior reserva mundial e Minas Gerais tenha se consolidado como polo produtor, 97% da produção nacional é exportada para a China em forma bruta, sem processamento interno que agregue valor.
Além das vulnerabilidades econômicas e socioambientais, o Brasil enfrenta também vulnerabilidades híbridas em suas infraestruturas críticas. Portos, ferrovias e sistemas digitais de rastreabilidade mineral estão expostos a riscos simultâneos — físicos e cibernéticos — que podem comprometer cadeias de suprimento estratégicas. A ausência de integração entre segurança industrial e digital fragiliza a posição brasileira em negociações internacionais, já que mercados de alto valor exigem confiabilidade não apenas ambiental, mas também tecnológica. Nesse sentido, a geopolítica dos minerais estratégicos conecta-se diretamente à resiliência das infraestruturas críticas nacionais.
O setor também enfrenta desafios socioambientais significativos. Crises de grande repercussão internacional deterioraram sua credibilidade e dificultam a assinatura de acordos de suprimento com mercados que exigem elevados padrões ESG¹. Sem uma governança robusta e transparente, o Brasil perde competitividade e reduz sua margem de manobra diplomática.
Os desastres de Mariana (2015) e Brumadinho (2019) expuseram falhas graves de governança. Mariana liberou 60 milhões de m³ de rejeitos, devastando comunidades e poluindo o Rio Doce até o Espírito Santo. Brumadinho despejou 10 milhões de m³, resultando em 270 mortes e danos irreparáveis. Esses episódios não apenas abalaram a confiança em empresas brasileiras, mas também dificultaram negociações com mercados que exigem padrões ESG rigorosos.
Portanto, o Brasil enfrenta um dilema: continuar como fornecedor vulnerável de commodities ou reposicionar-se como ator estratégico. Para isso, precisa avançar em cinco frentes: diversificação de mercados, consolidação de padrões ESG e rastreabilidade, integração da mineração à política externa, foco em minerais críticos comparado aos líderes internacionais, o Brasil ainda não utiliza seus recursos minerais como mecanismo de diplomacia (como a Austrália), selo de credibilidade sustentável (como o Canadá) ou instrumento de hegemonia industrial (como a China). Essa lacuna, contudo, abre espaço para uma agenda estratégica capaz de reposicionar o país e midstream, e governança socioambiental robusta. Sem esses movimentos, o país permanecerá preso a ciclos de dependência e crises reputacionais.
Caminhos Estratégicos para o Brasil
Para reposicionar-se de forma estratégica e transformar seu potencial mineral em influência internacional, cinco frentes são prioritárias:
1- Diversificação de mercados
Reduzir a dependência da China é essencial. O Brasil deve fortalecer relações com Estados Unidos, União Europeia, Índia, Japão e ASEAN, ampliando seus portfólios de compradores.
2- Padrões ESG e rastreabilidade
Mercados de alto valor exigem sustentabilidade verificável. O país deve consolidar indicadores robustos, adotar sistemas modernos de rastreabilidade e alinhar-se às taxonomias verdes internacionais, assim, o país não apenas atende às exigências externas, mas também se posiciona como referência regulatória e diplomática, ampliando sua voz na governança global da mineração.
3- Integração entre MRE, MDIC e APEX
A mineração deve ser tratada como instrumento de política externa. Isso envolve coordenação diplomática, inteligência comercial e participação ativa em fóruns multilaterais.
4- Foco em minerais críticos e cadeias de valor
É essencial mapear oportunidades no midstream – refino, ligas e compostos – conectando a geologia brasileira à economia de baixo carbono.
5- Governança socioambiental e resiliência híbrida
A reconstrução da credibilidade exige fiscalização efetiva, coerência regulatória e transparência. Além disso, é indispensável integrar segurança física e cibernética em portos, ferrovias e sistemas digitais, garantindo resiliência híbrida. Sem essa integração, o Brasil continuará exposto a riscos simultâneos — desastres ambientais, falhas logísticas e ataques digitais — que podem comprometer cadeias de suprimento e reduzir sua margem de manobra diplomática. A governança deve ser entendida como um sistema multidimensional, capaz de alinhar sustentabilidade, rastreabilidade e proteção tecnológica.
CONCLUSÃO
A mineração não é apenas um setor econômico: é uma alavanca geopolítica. Austrália, Canadá e China demonstram que recursos minerais podem ser convertidos em instrumentos de poder quando articulados a objetivos diplomáticos, industriais e tecnológicos. A Austrália utiliza reservas estratégicas como ferramenta de diplomacia econômica; o Canadá transformou sustentabilidade em ativo competitivo; e a China domina o midstream, moldando cadeias globais. O Brasil, por sua vez, ainda não conseguiu transformar sua abundância mineral em influência geopolítica.
Os dados mostram que o país possui vantagens únicas: 95% das reservas globais de nióbio, potencial crescente no lítio e posição consolidada no minério de ferro. No entanto, a dependência da China e os impactos socioambientais corroem sua credibilidade. Para isso, é necessário reduzir a dependência da China, diversificar mercados e consolidar padrões ESG verificáveis, capazes de atender às exigências de compradores de alto valor agregado. A integração entre política externa, competitividade industrial e governança socioambiental é o eixo central dessa transformação. Sem coordenação, o país continuará preso a ciclos de volatilidade e crises reputacionais; com uma agenda integrada, poderá ampliar voz, atrair capital e redefinir seu lugar no sistema internacional.
Ao assumir essa agenda, o Brasil não apenas reduzirá vulnerabilidades internas, mas também poderá contribuir para a definição de padrões internacionais de sustentabilidade e segurança mineral. Isso ampliaria sua voz em fóruns multilaterais, fortaleceria sua posição em negociações comerciais e permitiria que o país se reposicionasse como ator central na diplomacia econômica global. A contribuição brasileira, nesse sentido, não seria apenas econômica, mas também normativa e estratégica.
A vulnerabilidade brasileira não se limita à dependência comercial ou às crises socioambientais. O país precisa reconhecer que infraestruturas críticas ligadas à mineração — físicas e digitais — são alvo de riscos híbridos que podem comprometer sua inserção internacional. A construção de uma agenda integrada deve incluir não apenas governança socioambiental e diplomacia mineral, mas também segurança cibernética e resiliência tecnológica, elementos indispensáveis para transformar abundância mineral em influência geopolítica.
As implicações são claras: na transição energética e na disputa por cadeias de valor, o tempo estratégico é agora. O Brasil precisa decidir se será apenas fornecedor de commodities ou protagonista na definição das regras da nova economia mineral global. Essa escolha determinará não apenas sua relevância econômica, mas também sua capacidade de exercer influência geopolítica em momentos críticos.
Notas
[1] ESG: Environmental, Social and Governance.
[2] Midstream: etapa intermediária da cadeia mineral, que inclui refino, processamento e transformação de matérias-primas em insumos industriais.
Referências
Jungmann, Raul. 2025. “Da mineração à ação climática: o caminho que o Brasil deve pavimentar na COP30”. CEBRI-Revista, Ano 4, Número 15 (Jul-Set). https://cebri.org/revista/br/artigo/233/da-mineracao-a-acao-climatica.
CEBRI, IBRAM, CENERGIA, CETEM & SGB. 2025. O papel do Brasil na agenda global de minerais críticos e estratégicos: demanda projetada e contribuição possível do Brasil na transição energética. Rio de Janeiro: CEBRI. https://cebri.org/br/doc/399/o-papel-do-brasil-na-agenda-global-de-minerais-criticos-e-estrategicos.
Recebido: 12 de janeiro de 2026
Aceito para publicação: 16 de abril de 2026
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