Desde janeiro de 2025, o governo Trump tem transformado os interesses empresariais dos EUA nos setores de energia e de minerais críticos em política de segurança nacional, enquadrando a América Latina como uma zona prioritária de atenção sob um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe. Por meio de pressão militar, intervenções (notadamente na Venezuela) e acordos bilaterais de segurança e mineração, Washington busca acesso a recursos em meio à competição com a China, reconfigurando a soberania regional, a governança energética e as dinâmicas de extração mineral dos Estados latino-americanos.
O objetivo deste breve ensaio é argumentar que o segundo governo de Donald Trump vem sendo marcado por uma disposição de empregar abertamente a força militar dos EUA para assegurar o suprimento estrangeiro de matérias-primas antigas e novas, com vistas especialmente a atender aos interesses das big techs. Esse grupo de companhias transnacionais de alta tecnologia fornece a infraestrutura e os serviços digitais dos quais grande parte dos setores econômico, social e político do país passaram a depender (Birch & Bronson 2022). A proximidade dos maiores empresários do setor em relação a Trump é contínua e feita sob holofotes. CEOs de empresas como Meta, Amazon, Google, Tesla/SpaceX, Apple e Nvidia, entre outros, estavam presentes em sua posse, em janeiro de 2025 (Swenson 2025), e o acompanharam na sua mais recente e importante viagem internacional, feita à China, em maio de 2026 (Hays & Mitchell 2026).
As big techs ambicionam garantir um abastecimento seguro e abundante de dois tipos de matérias-primas em particular: fontes de energia para atender à demanda crescente de sistemas de inteligência artificial (O’Donnell & Crownhart 2025) e minerais críticos para a fabricação de eletrônicos de diversos tipos, como celulares e computadores, para uso tanto civil quanto militar (Allen 2025). A transformação dessa agenda empresarial em interesse nacional foi plasmada por Trump na Declaração de Emergência Energética Nacional, publicada no primeiro dia do novo mandato. O documento estipula que os EUA devem tornar mais confiável, diversificada e barata toda a sua cadeia de energia, que inclui minerais críticos, petróleo (e derivados), gás, carvão, urânio, biocombustíveis e fontes geotérmicas e hídricas (Casa Branca 2025).
A dimensão externa desta linha de ação foi expressa na Estratégia de Segurança Nacional, lançada em novembro de 2025, que aponta a segurança econômica nacional como uma das prioridades a serem defendidas pelo governo Trump (Casa Branca 2025b). A orientação visa aumentar a autossuficiência dos EUA e inclui os objetivos de manter a dominância do país no setor internacional de energia, rejeitar limitações de uso de combustíveis fósseis impostas pela “ideologia” das mudanças climáticas e garantir acesso a cadeias de materiais e minerais ao redor do mundo, a serem monitorados pelo serviço de inteligência dos EUA. O continente americano é citado como estratégico para esses fins, devendo receber maior presença militar para afastar potências extrarregionais, em nome de um Corolário Trump à Doutrina Monroe.
Esta doutrina política concebeu as Américas, em 1823, como uma esfera de influência exclusiva dos EUA, em meio às lutas pela independência que ocorriam na região. Em 1904, o presidente Theodore Roosevelt anunciou um primeiro adendo à doutrina – que passou a levar seu nome –, que afirmava a disposição dos EUA de exercer um papel de polícia nas Américas e de intervir na soberania interna dos países sempre que considerassem necessário para manter as potências europeias afastadas da região. Atualmente, o que Trump faz é atualizar tais fins e meios, deslocando o foco para a contenção do poder da China e a consolidação do domínio das big techs estadunidenses. As seções a seguir descrevem os primeiros movimentos tomados nessa direção.
VENEZUELA COMO PRIMEIRO TESTE DO COROLÁRIO TRUMP
O Comando Militar do Sul (Southcom) é a unidade operacional do Departamento de Guerra (antigo Departamento de Defesa) dos EUA responsável por executar políticas para a América Latina e o Caribe (exceto o México, situado sob a égide do Northcom). Todo ano, o comandante do Southcom faz uma declaração pública ao Senado dos EUA, na qual relata suas atividades de trabalho. Em fevereiro de 2025, o almirante Alvin Holsey (2025), nomeado por Trump para o cargo, destacou que reduzir a influência da China na região seria uma prioridade em sua gestão, uma vez que o país asiático rivalizaria com os EUA no acesso a matérias-primas, minerais, energia, infraestrutura logística e telecomunicações. Conter as ações de Rússia, Irã, crime organizado e migrantes indocumentados também seriam objetivos perseguidos. O meio privilegiado para a defesa dos EUA seria a construção de parcerias militares com governos locais, como cooperação na criação de capacidades, exercícios conjuntos e assistência humanitária.
Contudo, o almirante Holsey anunciou, em outubro de 2025, que renunciaria ao comando do Southcom em dezembro daquele ano, em um movimento descrito pela imprensa como forçado pelo Secretário de Guerra do governo Trump, Pete Hegseth, que pressionava por uma “flexibilização” na postura da instituição (Stewart 2025). O anúncio aconteceu poucas semanas após Hegseth ordenar que todos os ocupantes de uma embarcação venezuelana suspeita de transportar drogas no mar do Caribe fossem mortos em um ataque aéreo com míssil (Horton & Nakashima 2025). Esse tipo de ação se repetiria nos meses seguintes, sob comando de uma nova Força-Tarefa contra Narcóticos, criada por Hegseth para assumir tais operações no lugar do Southcom. Em seu discurso de despedida, o almirante Holsey salientou que democracia, império da lei e direitos humanos eram valores que deveriam guiar a defesa dos EUA (Stewart 2025).
Pouco tempo depois, em 3 de janeiro de 2026, os EUA invadiram a Venezuela por algumas horas e sequestraram o presidente e a primeira-dama do país, Nicolás Maduro e Cilia Flores. O casal foi levado a uma prisão em Nova York, acusado de integrar uma rede de “narcoterrorismo” que enviava drogas aos EUA. O movimento foi ordenado pela Casa Branca sem passar por debates no Congresso e recebeu críticas da China, maior compradora do petróleo venezuelano, por violar o direito internacional (Xinhua 2026). No lugar de Maduro, a Assembleia Nacional da Venezuela empossou a vice-presidente, Delcy Rodríguez. Ao longo dos últimos meses, Rodríguez vem facilitando investimentos estrangeiros nas áreas de petróleo e mineração da Venezuela (OPSA 2026), ao passo que ataques dos EUA a embarcações no Caribe diminuíram.
PRESSÃO CRESCENTE POR ENERGIA
Após a efetivação do Corolário Trump na invasão à Venezuela, logo se tornaria evidente um padrão na atuação dos EUA na América Latina: garantir o acesso a fontes de energia e minerais valendo-se de ameaça de uso da força ou da presença militar, sob a desculpa de combate ao narcotráfico. No dia da prisão de Maduro, Trump declarou que seu homólogo colombiano seria o próximo alvo de atenção, acusando-o de envolvimento com cartéis de drogas (Reuters 2026b). Uma distensão ocorreu em fevereiro, após Gustavo Petro oferecer os portos colombianos como saída para o petróleo produzido na Venezuela chegar aos EUA (Monitor Mercantil 2026).
Com outra vizinha da Venezuela, a Guiana, os EUA assinaram um acordo de cooperação militar para patrulhar águas no esforço de combater o narcotráfico no final de 2025 (Exame 2025). A ação ajudará a proteger a exploração de petróleo offshore feita sobretudo pela Exxon Mobil, em meio a pressões sociais por uma renegociação do contrato, considerado desvantajoso ao Estado guianês. Uma renegociação pelo governo de Irfaan Ali, porém, foi repudiada publicamente pela embaixadora estadunidense na Guiana em abril (Kaieteur News 2026), em uma clara intervenção em assuntos domésticos.
Com o Equador, o Southcom iniciou, em março, operações militares conjuntas em mar e terra para combater o narcotráfico e a mineração ilegal, após a tentativa do presidente Daniel Noboa de instalar bases militares permanentes dos EUA no país, o que foi rejeitado pela população em plebiscito (Bermúdez 2026). No mês seguinte, os EUA assinaram um memorando de entendimento para cooperação em produção de energia nuclear no Equador, a fim de expandir e diversificar sua matriz energética (Equador 2026). Esse tipo de energia é cobiçado por big techs pela capacidade de produção de eletricidade ininterruptamente (Rapier 2026).
Para além da Pan-Amazônia, no Paraguai, o presidente Santiago Peña autorizou, em março, a presença de militares e funcionários de governo dos EUA para atividades de segurança e defesa com imunidade diplomática, sobretudo com vistas a combater redes criminosas que operam na Tríplice Fronteira (Taddeo 2026). Nessa região, os EUA também planejam utilizar a energia elétrica produzida ao Paraguai pela Hidrelétrica de Itaipu para abastecer data centers de empresas de inteligência artificial (Modanez & Rocha 2025), que poderão ser instalados, portanto, sob vigilância do Pentágono.
Para reunir essas e outras iniciativas bilaterais em uma ação coletiva, os EUA organizaram o evento “Escudo das Américas” na Flórida, em 7 de março, ao qual compareceram os presidentes de 12 países considerados aliados: Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, República Dominicana e Trinidad e Tobago. Em discurso na ocasião, Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, afirmou que a plataforma pretende facilitar diálogos entre governos no dia a dia em assuntos de defesa, segurança, energia e comércio (United States 2026). Kristi Noem, Secretária de Segurança Interna dos EUA, foi nomeada Enviada Especial para o Escudo das Américas, a fim de se dedicar ao aprofundamento da cooperação.
BUSCA DE MINERAIS CRÍTICOS
Como mencionado anteriormente, a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, publicada em novembro de 2025, coloca o acesso a minerais críticos como um dos pilares da segurança econômica do país (Casa Branca 2025b). Nesse sentido, o segundo governo Trump vem reforçando a necessidade de depender menos de outros países no fornecimento desses minerais. A ordem executiva 14241, emitida em março de 2025, por exemplo, direciona esforços para aumentar a mineração doméstica (Casa Branca 2025c). No entanto, os EUA não têm reservas e condições de extração e processamento para suprir toda sua demanda, de modo que vêm direcionando esforços para estreitar a relação com países fornecedores desses minerais. Em documento emitido em 14 de janeiro de 2026 (Adjusting imports of processed critical minerals and their derivative products into the United States), Trump afirmou que é necessária a negociação de acordos com outros países para o suprimento de minerais críticos o mais rápido possível, inclusive impondo restrições à importação de outros produtos, como tarifas, caso não se atinjam acordos satisfatórios no prazo desejado. O secretário de Comércio estadunidense foi incumbido de negociar tais acordos (Casa Branca 2026a).
Desde janeiro de 2025, os EUA investiram mais de US$ 1 bilhão em minerais críticos na América Latina, especialmente em projetos para garantir suprimento de lítio, cobre e terras raras (Jamasmie 2026). Em 4 de fevereiro de 2026, Washington organizou uma Reunião Ministerial sobre Minerais Críticos, reunindo 54 países, com o objetivo de reorganizar as cadeias de suprimentos globais. Sete países latino-americanos estiveram presentes: Argentina, Bolívia, Brasil, Equador, México, Paraguai e Peru. No evento foi anunciado o Forum on Resource Geostrategic Engagement (FORGE), como sucessor da Mineral Security Partnership, com vistas a ser uma zona preferencial de comércio e investimento em minerais críticos, dotada de mecanismos de coordenação de preços mínimos (Blakemore & Harmon 2026). Além disso, foram anunciados 11 acordos bilaterais sobre minerais críticos (Estados Unidos 2026a).
Um acordo com a Argentina foi um dos primeiros a ser assinado. O presidente Javier Milei afirmou que a iniciativa deve impulsionar o crescimento econômico do país por meio da facilitação de financiamento público e privado, simplificação de processos administrativos de licenciamento e cooperação em áreas como mapeamento geológico, reciclagem e gestão de materiais sensíveis (CNN Brasil 2026a). O acordo é um desdobramento do Memorando de Entendimento sobre minerais críticos que os dois países assinaram em agosto de 2024 (Embaixada dos EUA na Argentina 2024). Um dos principais minerais extraídos na Argentina é o lítio. O país é parte do chamado “triângulo do lítio”, junto com Bolívia e Chile, que concentra mais da metade das reservas mundiais desse mineral (Ives, Nascimento & Closs 2023).
Com a Bolívia, os EUA não possuem, ainda, um acordo semelhante. Nas duas últimas décadas, o país lidou com seus recursos minerais de forma mais autônoma e soberanista que seu vizinho argentino. Porém, após mudanças na presidência boliviana em 2025 e a chegada de Rodrigo Paz, de centro-direita, ao poder, o cenário vem se alterando. No fim de abril de 2026, Bolívia e EUA assinaram um Memorando de Entendimento sobre minerais críticos (AFP 2026). Por sua vez, com o Chile, o governo Trump assinou um acordo sobre mineração e segurança no dia 20 de abril. Segundo o ministro das Relações Exteriores chileno, Francisco Pérez Mackenna, o acordo busca reforçar cadeias de suprimentos seguras e resilientes, promover a produção de valor agregado e criar condições para atrair investimentos (Orellana 2026). O acordo dá seguimento à declaração assinada pelos dois países em março de 2026 sobre minerais críticos e terras raras (Subrei 2026).
Peru, Equador e Paraguai assinaram acordos sobre minerais críticos com os EUA no evento do dia 4 de fevereiro de 2026. No caso peruano, um Memorando de Entendimento entre os dois países sobre o tema já existia desde agosto de 2024 (Embaixada dos EUA no Peru 2024). No caso equatoriano, o acordo foi o primeiro desse tema entre os dois países. Para a Câmara de Mineração do Equador, trata-se de um marco para o país, dado que apenas 1% do território equatoriano é efetivamente explorado (Primicias 2026). No caso paraguaio, segundo o governo de Santiago Peña, os dois países se comprometeram a intensificar os esforços de cooperação para acelerar o fornecimento seguro de minerais críticos e o fortalecimento de suas bases industriais (MRE Paraguai 2026). O país também passa por um processo de reforma de sua legislação referente à mineração, com o objetivo de facilitar investimentos privados (Infobae 2026a).
Em relação à Venezuela, o governo Trump vem se beneficiando das novas políticas adotadas pela presidente Delcy Rodríguez. Em 9 de março, a Assembleia Nacional do país aprovou uma nova lei de mineração para atrair investimentos privados ao setor (Valor Econômico 2026). Alguns dias depois, o governo estadunidense aprovou licenças para investimentos e operações em minerais críticos na Venezuela (Shakil & Martinez 2026). Para além da América do Sul, com o México, foi anunciado, em 4 de fevereiro último, um Plano de Ação sobre minerais críticos, com o objetivo, segundo o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, de desenvolver políticas comerciais coordenadas e mecanismos que mitiguem as vulnerabilidades dessa cadeia de suprimentos (Porsch 2026). O Representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, afirmou que o plano ressalta o compromisso dos dois países de enfrentar “distorções do mercado global que deixaram as cadeias de suprimentos da América do Norte vulneráveis a interrupções” (Reuters 2026a).
Por fim, um acordo sobre minerais críticos também foi proposto pelos EUA ao Brasil, mas não obteve resposta positiva (Ionova & Faddul 2026). Ainda assim, no início de abril de 2026, o governo Trump assinou um memorando de entendimento com o governo de Goiás para cooperação no setor de minerais críticos, o que gerou preocupação no governo federal brasileiro, que não foi consultado (Garcia 2026b). No final daquele mês, a empresa estadunidense USA Rare Earth (USAR) anunciou a compra da mineradora Serra Verde Group, localizada em Minaçu, em Goiás. A empresa é responsável pela única mina que produz e processa terras raras no Brasil. Também é a única fora da Ásia com capacidade de produção em escala comercial de quatro elementos do conjunto de terras raras: neodímio, praseodímio, térbio e disprósio (ClimaInfo 2026).
NÚCLEO E FISSURAS DO COROLÁRIO TRUMP
Conforme as seções anteriores descrevem, o intervencionismo militar e o extrativismo são duas faces do Corolário Trump que os EUA estão aplicando atualmente na América Latina. Trata-se de uma reedição de práticas imperialistas que marcam a história das relações internacionais entre centro e periferia, desta vez em benefício das big techs. A maior presença de militares em países da região e a ameaça de uso da força contra governos não alinhados são instrumentos de uma estratégia que anuncia um combate maior ao crime organizado, mas que visa fundamentalmente à dissuasão de potências extrarregionais, com destaque para a China, e ao ganho concomitante de maior influência dos EUA sobre infraestruturas críticas, sobretudo nas áreas de energia e mineração. Essa estratégia compõe parte de uma geopolítica maior da inteligência artificial, em que Washington e Pequim estão disputando o controle mundial de matérias-primas, infraestruturas, equipamentos e tecnologia avançada para aumentar a produtividade de suas economias (Stacciarini & Gonçalves 2025).
Entretanto, há fissuras no projeto dos EUA. Domesticamente, não há consenso entre os militares sobre a abordagem de desrespeito ao direito internacional, como exemplificado pela escolha do almirante Holsey de abandonar a liderança do Southcom. Mudanças na composição do Congresso dos EUA, nas eleições de meio de mandato programadas para novembro de 2026, podem aumentar a oposição à estratégia. Na região, a grande lacuna política é a falta de adesão do Brasil, que resiste em militarizar o combate ao narcotráfico, possui ampla cooperação em energia com a China e reivindica maior soberania em acordos de exploração de minerais críticos solicitados pelos EUA. A eleição presidencial brasileira em outubro próximo será um pleito entre as alternativas de manter a posição de autonomia por mais quatro anos, representada por Lula da Silva, ou alterá-la em favor de uma maior submissão a Trump, conforme reivindica a oposição bolsonarista. A disposição da Casa Branca de interferir nas eleições brasileiras já ganhou notoriedade pública (Ionova & Wong 2026).
No nível global, a economia política do Corolário Trump vai na contramão do combate às mudanças climáticas, problema de primeira ordem hoje. Ao violar princípios básicos do direito internacional, enfraquecer o multilateralismo, não abrir mão da produção de energias fósseis e desconsiderar debates sobre justiça ambiental em projetos de mineração, os EUA adotam um comportamento de obstrução climática (Roberts et al. 2025), o qual atrasa a ação coletiva multinível necessária para mitigar a emissão de gases de efeito estufa e adaptar a vida humana à atmosfera mais quente. Os custos socioambientais do Corolário Trump transcendem, portanto, a América Latina e, ao contrário da almejada zona de influência exclusiva, podem acabar multiplicando reações transnacionais e ampliando caminhos de contra-hegemonia na região (Stephens 2026).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Corolário Trump representa uma atualização contemporânea e agressiva da Doutrina Monroe. Busca reforçar uma concepção do século XIX sobre a América Latina como sendo uma extensão da soberania dos EUA, onde o poder militar deve ser instrumentalizado para garantir energia e minerais críticos, especialmente em benefício das big techs. Ao escudar poderosos interesses empresariais, o corolário almeja conter a influência da China na região e controlar cadeias de suprimentos estratégicas para o setor de tecnologia de ponta. Para obter acordos favoráveis aos EUA, o governo Trump mostra-se abertamente disposto a recorrer a formas variadas de intervencionismo, que incluem a invasão de territórios, a destituição de presidentes, a ameaça de uso de força militar, a presença de militares e a interferência em eleições. Apesar da enorme pressão que esse comportamento da Casa Branca significa para a autonomia dos países latino-americanos hoje, existe espaço político para uma resistência regional e trans-regional, especialmente em razão da multiplicação de conflitos socioambientais que tendem a decorrer dessa linha de ação trumpista.
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Recebido: 13 de julho de 2026
Aceito para publicação: 4 de agosto de 2026
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