Autoridades, diplomatas, líderes empresariais, investidores e especialistas do Brasil e da China se reuniram, nesta quarta-feira (25), em Xangai, para o Summit Valor Econômico Brazil–China 2026. O encontro é promovido pelo Valor Econômico, em parceria com o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) e a Chinese People’s Association for Friendship with Foreign Countries (CPAFFC).
A agenda contou com painéis temáticos que discutiram os próximos passos da cooperação bilateral em áreas estratégicas, como comércio internacional, transição energética, infraestrutura, inovação tecnológica, saúde, agronegócio e financiamento climático.
O Embaixador Marcos Galvão, atual Embaixador do Brasil na China e Conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, destacou a construção consistente e cuidadosa da relação diplomática entre os dois países ao longo de décadas.
“As relações entre o Brasil e a China são permanentes, estratégicas, e isso não é apenas retórica. Por isso mesmo, demandam atenção e empenho continuados por parte de todos os brasileiros e chineses, que trabalham por seu progresso nos mais diversos setores”, afirmou.
Segundo o Embaixador, o atual patamar da relação, com uma corrente de comércio que se aproxima dos US$ 200 bilhões, só foi possível graças à disposição de ambos os lados de investir recursos políticos e econômicos, mesmo diante de desafios iniciais e limitações.
“Não teríamos chegado até aqui se tivéssemos nos acomodado quando confrontados com o pouquíssimo que havia entre nós e nos paralisado diante do desafio de investir recursos políticos e econômicos nessa grande obra de engenharia diplomática empresarial que são as relações Brasil-China. Uma obra conjunta cuidadosa, fundada na construção e preservação da confiança e do interesse mútuos."
Para o Embaixador Marcos Caramuru, Conselheiro Consultivo e Internacional do CEBRI, a parceria entre Brasil e China segue em expansão, atingindo novos patamares não apenas em termos quantitativos, mas também na qualidade e no grau de proximidade da relação bilateral.
"É lugar comum, nos dias de hoje, dizer que vivemos em um mundo de incertezas, onde aliados históricos não se reconhecem como antes, onde os valores da ordem global estão se perdendo, mas onde há espaços para a cooperação, desde que os países saibam construir confiança, ter foco e perseverança. Nesse cenário, a cooperação entre o Brasil e a China está em franca expansão”, destacou Caramuru.
O painel de abertura contou ainda com a participação de Shen Xin, Vice-Presidente da CPAFFC; Chen Jing, Vice-Presidente do Comitê Permanente do Congresso Popular Municipal de Xangai; Frederic Kachar, CEO da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio (SGR); e Maria Fernanda Delmas, Diretora de Redação do Valor Econômico.
Em um contexto global marcado por transformações recentes, como pandemia, guerras e o aumento de medidas protecionistas, fluxos comerciais foram redesenhados, alianças reconfiguradas e a busca por parceiros mais estáveis e diversificados se intensificou.
iante desse cenário, o primeiro painel discutiu como Brasil e China podem navegar nesse ambiente em transformação, quais tendências moldarão a próxima década e quais caminhos podem fortalecer a parceria bilateral. A defesa do multilateralismo, aliada ao comprometimento com a agenda climática, foi o principal foco do debate.
Para Izabella Teixeira, Conselheira Consultiva e Internacional do Centro Brasileiro de Relações Internacionais e Ex-Ministra do Meio Ambiente (2010-2016), é necessário superar visões tradicionais e reconhecer que todas as cadeias de valor dependem diretamente da natureza.
“O mundo, o futuro, também precisa dessa cooperação. Não só do ponto de vista da questão verde, mas essencialmente também de uma nova visão da dependência da humanidade sobre a natureza. Todas as soluções para as crises globais que envolvem a agenda verde, inclusive nas cadeias de valor, são dependentes da natureza.”
A Ex-Ministra também enfatizou o papel estratégico dos dois países nesse debate. “China e Brasil são detentores de natureza, são países megabiodiversos, detentores de recursos naturais, detentores de soluções e de uma longa tradição diplomática que também está refletida na agenda climática. E, portanto, uma grande oportunidade de influenciar essas cadeias de valor a partir de uma leitura mais estratégica sobre acesso, valoração, monitoramento e qualificação da natureza nessas cadeias de valor.”
Mediado por Marcelo Ninio, correspondente e colunista de O Globo em Pequim, o painel também ressaltou a necessidade de diversificação da pauta comercial. O Embaixador Marcos Galvão destacou que cerca de 75% das exportações brasileiras ainda se concentram em poucos produtos, o que representa um desafio estrutural.
“Queremos que os investimentos chineses no Brasil avancem para além do atendimento ao mercado doméstico e se consolidem como plataformas de exportação de manufaturados. Isso pode contribuir para a revitalização da nossa base industrial”, afirmou.
O painel contou ainda com a participação de Fang Li, Representante-Chefe do escritório do World Resources Institute em Pequim; e Xu Tianqi, Vice-Diretor do Departamento de Estudos Regionais do Instituto Chongyang de Estudos Financeiros da Universidade Renmin da China.
A China é hoje a maior investidora global em energia limpa e enfrenta o desafio duplo de cumprir metas de neutralidade de carbono em um contexto histórico de elevada emissão, ao mesmo tempo em que tenta garantir a sustentabilidade urbana de suas megalópoles, consolidando uma cadeia de energia limpa robusta e competitiva.
O Brasil, por sua vez, destaca-se por possuir uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, com cerca de 87% da eletricidade proveniente de fontes renováveis, além de deter vasto potencial para a expansão de eólicas offshore, energia solar e hidrogênio verde.
Nesse contexto, Brasil e China apresentam um elevado grau de complementaridade na transição energética, o que os posiciona como aliados não apenas na descarbonização de seus territórios, mas também no avanço da economia verde global. Ao mesmo tempo, enfrentam desafios comuns: a criação de mercados para os negócios do setor e o avanço em um comércio ainda marcado por tendências protecionistas.
Para Jorge Arbache, Senior Fellow do Instituto Clima e Sociedade (iCS) e Professor da Universidade de Brasília, a guerra no Oriente Médio e a escalada do protecionismo abrem uma agenda promissora de negócios em transição energética, na qual Brasil e China devem assumir protagonismo. Além disso, diante da necessidade de diversificar as fontes de energia renovável, o economista destaca a complementaridade natural entre os dois países. “São dois países que não só têm riquezas nesses temas, mas também em termos de tecnologias e de necessidades mútuas.”
“A palavra-chave nos dias de hoje, no mundo, é diversificação. Diversificação de fontes de energia, de origem dessa energia, de cadeias de suprimentos, diversificação de uma forma ampla, de tal forma que você dissipe riscos e possa se proteger, não só do que temos hoje, mas também do que provavelmente virá amanhã. E o que virá amanhã tem a ver não só com a geopolítica, mas também com as mudanças climáticas que já estão, mas provavelmente provocarão ainda mais fenômenos climáticos extremos”, afirmou.
Com mediação de Lucas de Vitta, Editor-Assistente de Internacional do Valor Econômico, participaram também do painel Zhao Han, Oficial Sênior de Investimentos do Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB); Ricardo Lima, CEO da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração; Shelley Wang, Diretora para o mercado Brasil da Hexing Electrical Co; e Marcelo Sampaio, Diretor Executivo de Assuntos Jurídicos e Institucionais da Vale Minerals China.
Impulsionada pela Belt and Road Initiative (BRI), a China tem ampliado sua presença global por meio de investimentos em infraestrutura, comércio e conectividade. A estratégia busca garantir o acesso a insumos e mercados em diferentes regiões do mundo.
No Brasil, esse movimento se traduz em aportes crescentes em portos, ferrovias e corredores logísticos, com o objetivo de reduzir gargalos estruturais e aumentar a eficiência no escoamento de commodities. Paralelamente, a China também tem direcionado investimentos para setores como energia elétrica e renovável, óleo e gás e mineração.
Nesse contexto, a infraestrutura logística brasileira deve passar por um ciclo relevante de transformação nos próximos anos, impulsionado pela expectativa de novos investimentos. Enquanto empresas chinesas identificam oportunidades no país, o governo brasileiro tem reforçado o setor como prioridade, com iniciativas voltadas ao aumento da segurança jurídica e ao destravamento de investimentos privados.
Reunindo representantes do setor público e privado para debater os desafios e oportunidades da agenda, o painel contou com a participação Li Sisheng, Vice-Presidente Executivo da Powerchina International; Ding Songbing, Gerente-Geral e Chefe do Departamento de Estratégia e Pesquisa do Shanghai International Port (Group) Co.; Leonardo Ribeiro, Secretário Nacional de Ferrovias do Ministério dos Transportes; e Zhang Jianyu, Secretário-Geral Adjunto da Coalizão Internacional de Desenvolvimento Verde da iniciativa "Cinturão e Rota", do Ministério da Ecologia e Meio Ambiente da China.
A cooperação entre Brasil e China nas áreas de saúde e tecnologia tem avançado de forma significativa, acompanhando o papel crescente da inteligência artificial (IA) nas estratégias globais de inovação. Com investimentos robustos, a China vem acelerando o uso de IA aplicada à saúde, especialmente em soluções de diagnóstico, triagem e gestão hospitalar.
Ao longo do debate, os participantes convergiram na avaliação de que, com políticas adequadas e uma agenda coordenada de cooperação, Brasil e China têm potencial para acelerar o desenvolvimento de tecnologias em saúde e inteligência artificial, contribuindo para a consolidação de novas cadeias globais de valor.
Do lado brasileiro, o debate destacou a necessidade de criar condições mais favoráveis para atrair investimentos em infraestrutura digital, como data centers. Nesse contexto, a combinação entre energia renovável e maior integração internacional foi apontada como um diferencial estratégico do país.
A discussão reuniu Zhou Yong, Co-fundador e CMO da Hangzhou StarSpecies Robotics Co.; Letícia Frazão Leme, Ministra-Conselheira na Embaixada do Brasil na China; Chen Weijing, Vice-Diretora do Departamento de Comércio de Hangzhou; Igor Marchesini, Assessor Especial do Ministro da Fazenda; Han Lu, Especialista da Câmara de Comércio da China para Importação e Exportação de Medicamentos e Produtos de Saúde (CCCMHPIE); Felipe Daud, Diretor de Relações Institucionais do Grupo Alibaba para a América Latina; e Hui Jingbo, Diretor de Marketing da Hangzhou Zhizhen Technology.
A relação econômica entre Brasil e China entra em uma nova fase. Mais do que volume, o comércio bilateral passa a ser cada vez mais orientado por segurança de suprimento, previsibilidade, sustentabilidade, eficiência produtiva e agregação de valor.
Nesse contexto, o painel discutiu os caminhos para o próximo ciclo de crescimento da parceria, com foco nos setores de agronegócio, florestas e energia. Embora mineração e agro permaneçam centrais, novas exigências globais, como rastreabilidade, contratos de longo prazo e descarbonização, vêm redefinindo as oportunidades e os desafios para ambos os países.
Para os participantes do debate, a longevidade da parceria no agronegócio estará diretamente ligada a ganhos de qualidade, inovação e sustentabilidade. O 15º Plano Quinquenal da China, lançado em março deste ano, reforça essa direção ao estabelecer metas de descarbonização das cadeias produtivas, ao mesmo tempo em que busca garantir a segurança alimentar por meio da diversificação de fornecedores.
Outro ponto central foi o desafio de conciliar o aumento da produção agropecuária com a preservação ambiental, especialmente diante das mudanças climáticas e das metas de neutralidade de carbono até 2050.
Participaram do painel Kevin Chen, Professor Titular da Universidade de Zhejiang e Diretor do IFPRI na China; Pablo Machado, VP Global da Suzano e Presidente da Suzano Ásia; Tian Lei, Diretor da Tianjin Dongjiang e VP de Importação e Exportação da Associação de Carne da China; André Guimarães, Diretor Executivo do IPAM e Enviado Especial da sociedade civil para a COP30; e Inty Mendoza, Representante-chefe da CNA/Senar na China.
O setor automobilístico brasileiro vive um momento de transformação, impulsionado pela entrada crescente de montadoras chinesas no país. Esse avanço vem acompanhado de investimentos relevantes, como a instalação da fábrica da BYD em Camaçari (BA), que se consolida como a principal base de produção de veículos elétricos e híbridos da empresa na América Latina, além de representar seu maior investimento offshore.
Nesse contexto, mais do que ampliar presença no mercado, o desafio dessas empresas é se consolidar como players efetivamente “nacionais”, e não apenas como importadoras ou montadoras finais. Algumas marcas retornam ao país após experiências anteriores, enquanto outras chegam por meio de parcerias com montadoras ocidentais.
A aproximação com a China também ganha centralidade nas estratégias locais. Para Sidney Levy, Presidente da Invest.Rio, fortalecer essa relação é um dos pilares para o desenvolvimento da cidade do Rio de Janeiro. “Fizemos no ano passado um planejamento estratégico e havia duas áreas em que precisamos avançar: inteligência artificial e maior proximidade com a China”, afirmou.
O painel reuniu também David Zhou, Diretor de Produto e Homologação da BYD América; Victor Oliveira de Queiroz, Chefe do Escritório da ApexBrasil na Ásia-Pacífico; Priscila Sakalem, Secretária de Estado de Transporte e Mobilidade Urbana do Rio de Janeiro; e Briza Bueno, Diretora-Geral da AliExpress no Brasil.
O painel discutiu caminhos para o desenvolvimento de corredores verdes entre Brasil e China, com o objetivo de acelerar o uso de combustíveis de baixo carbono na aviação e no transporte marítimo. Entre os principais temas, estiveram o papel dos combustíveis sustentáveis de aviação (SAF), do metanol verde e de outras alternativas, além de questões relacionadas a padrões regulatórios, certificação e à infraestrutura necessária para viabilizar sua adoção em escala. Nesse contexto, também foram destacadas as oportunidades de investimento e a importância de parcerias público-privadas para impulsionar essas iniciativas.
Para Larissa Wachholz, Senior Fellow do CEBRI e sócia da Vallya Associados, é fundamental que o Brasil defina uma estratégia clara para aproveitar esse cenário.
“O Brasil tem uma base muito forte de matéria-prima e pode usar isso não apenas para exportar, mas para atrair investimento industrial e agregar valor à produção”, afirmou.
A especialista destacou ainda que o Brasil reúne condições relevantes de competitividade, mas precisa avançar em sustentabilidade e previsibilidade, evitando que a expansão produtiva esteja associada ao desmatamento.
“Se queremos ser fornecedores, precisamos refletir sobre qual produto queremos oferecer. Durante muito tempo, o Brasil buscou exportar etanol para a China, mas, no caso dos veículos, o país fez uma escolha clara pela eletrificação. Discutimos aqui aviação e combustível marítimo justamente porque, nesses setores, essa escolha ainda não está definida”, pontuou.
O debate também contou com a participação de Xia Shubiao, Diretor de Segurança e do Centro de P&D em Tecnologia de Segurança da China Marine Bunker (CHIMBUSCO), Sergio Peres, Professor da Universidade Federal de Pernambuco; Li Zhenglong, Professor Titular da Universidade de Zhejiang; Wang Shen, CEO da SafPac Hong Kong; e An Feng, Fundador e Diretor Executivo do Centro de Inovação de Energia e Transportes (iCET).
Painel 8 | Caminhos para um ecossistema de finanças robusto
Com uma combinação de alta tecnologia nos meios de pagamento e expansão dos instrumentos financeiros, a China passa por uma ampliação global do seu mercado de capitais. O Brasil, por sua vez, pode se beneficiar desse cenário.
O desenvolvimento do crédito privado no Brasil, que atingiu recordes nos últimos anos, abriu novas possibilidades para companhias de diversos portes e tornou-se chave para o desenvolvimento. Agora, o governo brasileiro planeja que esses instrumentos, especialmente o Fundo de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagro), possam atrair estrangeiros interessados em atuar no agronegócio, como os chineses.
Ao mesmo tempo, a emissão de green bonds no mercado internacional é cada vez mais importante para acessar o investidor voltado a padrões ESG. Enquanto isso, novas frentes se abrem. O programa EcoInvest, ao mobilizar recursos públicos e privados, tem sido peça-chave para viabilizar projetos na área de finanças verdes, como o agronegócio sustentável.
“Eu acho que existe uma atração geral do mundo pelo mercado de capitais na China, por possuir empresas de muito boa qualidade que emitem bonds, securities de toda ordem, que são atraentes no mercado, e porque a China tem empresas com ações em bolsa e o mercado se interessará pela valorização dessas ações. No caso do Brasil, o interesse pela China ainda tem um adicional que é a captação de recursos a um custo muito baixo. Ao mesmo tempo, a China agora está pedindo a suas empresas que operam em outros países e que ampliem também os seus investimentos na Economia Verde”, avaliou o Embaixador Marcos Caramuru, Conselheiro Consultivo e Internacional do CEBRI.
Participaram também da sessão Ricardo Damiani, Representante-Chefe Adjunto do Banco do Brasil na China; Lucas Reis, Líder Sênior de Financiamento Climático do BNDES; Li Zhiqing, Diretor-Executivo do Instituto de Finanças Verdes da Universidade Fudan; Liao Shuping, Pesquisadora Sênior do Instituto de Pesquisas do Banco da China; e Song Ruiming, Consultor Especial para Clima da Century City Holdings.